Engravidar depois dos 40: o que a ciência realmente diz sobre riscos e possibilidades
Engravidar depois dos 40 anos é uma realidade cada vez mais comum no Brasil. Segundo
dados do IBGE analisados pela FEBRASGO, o número de mulheres que tiveram o primeiro
filho após os 40 anos cresceu 66% nos últimos 12 anos no país. Isso não significa que a
gravidez tardia seja livre de riscos — a fertilidade feminina diminui progressivamente após
os 35 anos, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica gestações após essa
idade como de maior atenção obstétrica. Mas também não significa que seja impossível ou
irresponsável. Com acompanhamento pré-natal adequado, exames específicos e
informação baseada em evidência, milhares de mulheres acima dos 40 têm gestações
saudáveis todos os anos. Este artigo apresenta o que a ciência realmente diz — sem alarmismo nem romantização.
Por que tantas mulheres estão engravidando depois dos 40?
A maternidade tardia é um fenômeno global, mas no Brasil os números são especialmente
relevantes. Segundo a demógrafa Raquel Zanatta Coutinho (UFMG/Cedeplar), em 2023 as
mulheres acima de 40 anos foram responsáveis por 4,3% dos nascimentos no país, um
crescimento expressivo em relação aos 2,2% registrados em 2010. A taxa de fecundidade
brasileira caiu para 1,57 filhos por mulher em 2023, bem abaixo dos 2,1 considerados
necessários para reposição populacional (IBGE, 2024).
Os motivos são variados e bem documentados. Segundo pesquisa da Sociedade Brasileira
de Reprodução Humana, 68% das mulheres citam a consolidação da carreira como motivo
principal para adiar a maternidade. Além disso, o prolongamento da trajetória educacional, a
busca por estabilidade financeira e a ausência de parceiro adequado são fatores
frequentemente citados na literatura científica (Aldrighi et al., 2016; Scavone, 2001).
O perfil típico da mãe tardia no Brasil, segundo estudos demográficos, é de mulher com alta
escolaridade, residente em área urbana, com autonomia financeira e profissional. Isso não
significa, contudo, que a decisão seja isenta de pressões sociais ou de riscos biológicos que
precisam ser compreendidos.
Quais são os riscos reais de engravidar depois dos 40?

A ciência é clara sobre os riscos associados à gravidez tardia, e é importante conhecê-los
sem alarmismo. A fertilidade feminina diminui de forma mais acentuada a partir dos 35
anos, segundo a OMS, porque a quantidade e a qualidade dos óvulos decrescem
progressivamente com a idade.
Esses riscos significam que não dá para engravidar depois dos 40?
Não. Esses números são reais e não devem ser minimizados. Porém, a maioria desses riscos é detectável e manejável com acompanhamento médico adequado. Ou seja, o risco existe, mas pode ser monitorado e controlado.
Os principais riscos documentados pela FEBRASGO e pela literatura médica incluem:
- Maior dificuldade para engravidar naturalmente: a chance de concepção natural por
ciclo cai de cerca de 20% aos 30 anos para 5% aos 40 anos (FEBRASGO, 2023). - Aumento do risco de alterações cromossômicas: o risco de Síndrome de Down, por
exemplo, sobe de 1 em 1.250 aos 25 anos para 1 em 100 aos 40 anos (American
College of Obstetricians and Gynecologists — ACOG, 2022). - Maior incidência de diabetes gestacional: mulheres acima de 40 têm 2 a 3 vezes
mais chance de desenvolver diabetes durante a gravidez (OMS, 2023). - Risco elevado de hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia: a pressão alta na
gestação é mais frequente em gestantes acima de 35 anos (SBP/FEBRASGO). - Maior probabilidade de parto prematuro e cesárea: estudos indicam que gestantes
acima de 40 têm taxa de cesárea até 48% maior que gestantes na faixa dos 25-30
anos (PubMed: Lean et al., 2017). - Maior risco de abortamento espontâneo: a taxa de perda gestacional sobe de 10-
15% antes dos 35 para 30-40% após os 40 anos (ESHRE, 2023).
Esses números são reais e não devem ser minimizados. Mas também não significam que a
gravidez após os 40 seja inviável. A maioria desses riscos é detectável e manejável com
acompanhamento médico adequado.
O que fazer para ter uma gravidez saudável depois dos 40?
- O acompanhamento pré-natal especializado é o fator que mais influencia o desfecho de
uma gravidez tardia. A FEBRASGO recomenda que gestantes acima de 35 anos realizem,
além dos exames padrão do pré-natal: - Teste de DNA fetal livre (NIPT): rastreio não invasivo para alterações
cromossômicas, realizado a partir da 10ª semana de gestação. - Ultrassom morfológico detalhado: entre 20 e 24 semanas, com avaliação completa
da anatomia fetal. - Ecocardiograma fetal: indicado quando há fatores de risco adicionais.
- Monitoramento mais frequente de glicemia e pressão arterial: para detecção precoce
de diabetes e hipertensão gestacional. - Avaliação da reserva ovariana (AMH): indicada antes da concepção para mulheres
que estão tentando engravidar.
Além dos exames, a FEBRASGO e a OMS recomendam que a gestante mantenha hábitos
saudáveis: alimentação equilibrada, atividade física regular (com orientação médica),
controle de estresse, suplementação de ácido fólico (iniciada idealmente 3 meses antes da
concepção) e acompanhamento psicológico quando necessário.
Dica de leitura – Para quem quer começar a entender melhor o próprio ciclo e os sinais de fertilidade de forma natural, o livro “Fertilidade Positiva” (Patricia Broda Guim) é um guia visual e direto ao
ponto, que ensina a observar o corpo sem depender exclusivamente de aplicativos.
E a reprodução assistida? O que a ciência diz?
Quais são as taxas de sucesso da FIV?
A taxa de sucesso da FIV diminui com a idade. Segundo a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), a taxa de nascidos vivos por ciclo de FIV é de cerca de 30-35% para mulheres até 35 anos. Entre 40 e 42 anos, esse número cai para 10-15%. Após os 43, fica abaixo de 5% com óvulos próprios.
Com óvulos doados, porém, as taxas sobem significativamente, independentemente da idade da receptora. Essa é uma informação que muitas mulheres desconhecem.
Vale a pena congelar óvulos?
O congelamento de óvulos (criopreservação oocitária) é a estratégia preventiva mais recomendada por especialistas. Óvulos congelados preservam a qualidade da idade em que foram coletados. Portanto, se uma mulher congela óvulos aos 33 e os utiliza aos 42, as chances de sucesso são as de uma mulher de 33 anos.
Por esse motivo, a SBRA recomenda que mulheres que planejam adiar a maternidade considerem o congelamento antes dos 35 anos.
Dica de leitura – Se você quer entender a fundo como a qualidade dos óvulos impacta a fertilidade — e o que dá para fazer a respeito, o livro “Tudo começa com o óvulo” (Rebecca Fett) é a
referência mais completa e acessível disponível em português. Baseado em estudos
científicos, traz estratégias práticas sobre suplementação, alimentação e redução de toxinas
que podem fazer diferença nos meses anteriores à concepção.
Quais são as vantagens de ser mãe depois dos 40?
Até aqui falamos muito de riscos. Mas existe um outro lado dessa história — e ele merece o
mesmo espaço.
Ser mãe depois dos 40 não é só uma questão de “deu tempo”. Para muitas mulheres, é
uma escolha consciente, desejada, e que traz algo que nem sempre está presente na
maternidade mais jovem: presença. Uma pesquisa publicada no European Journal of
Developmental Psychology mostrou que mães que tiveram filhos após os 40 relatam menos
uso de punições, mais paciência e maior bem-estar emocional durante a criação dos filhos.
Existem relatos de mães que dizem: “Eu nunca teria a paciência que tenho hoje se tivesse
sido mãe aos 25.” Outras contam que a maternidade tardia trouxe um senso de prioridade
que antes não existia — menos pressa, mais atenção ao que realmente importa. E há algo
bonito nisso: a mulher que já viveu, já errou, já construiu algo próprio, traz para a
maternidade uma maturidade que não se aprende em livro.
A estabilidade financeira também faz diferença. Não porque seja necessário ser rica para
ser boa mãe, mas porque ter menos angústia com contas permite estar mais presente.
E existe um efeito colateral positivo que poucos mencionam: mães e pais mais velhos
tendem a se cuidar mais. A chegada de um filho depois dos 40 funciona como um lembrete
diário de que a saúde importa — não só para você, mas para estar presente nos marcos do
seu filho. Existem relatos de pais que mudaram completamente a alimentação, começaram
a fazer exercício, largaram hábitos antigos — tudo porque agora tinham um motivo concreto
para se cuidar. Acompanhar o crescimento de um filho é, também, um convíte para cuidar
de si.
Dica de leitura – Se você está nessa fase de tentativas e quer ler algo que misture ciência com acolhimento, o relato da Érika Nery em “De tentante a gestante” traz uma perspectiva diferente, como a medicina chinesa foi parte da jornada dela até a maternidade, após abortos e FIVs sem
sucesso. É ao mesmo tempo informativo e emocional.
Quando procurar ajuda médica?
A recomendação da FEBRASGO é clara: mulheres acima de 35 anos que estão tentando
engravidar há 6 meses ou mais sem sucesso devem procurar um especialista em
reprodução humana. Para mulheres acima de 40, a orientação é buscar avaliação médica
logo no início das tentativas, sem aguardar meses.
Exames iniciais recomendados incluem: dosagem de AMH (hormônio antimulleriano) para
avaliar a reserva ovariana, ultrassom transvaginal com contagem de folículos antrais,
histerossalpingografia para avaliar as trompas, e espermograma do parceiro.
Dica de leitura – Enquanto você organiza esses próximos passos, duas leituras podem ajudar: o “Guia da
Tentante” (Patricia e Larissa Dornelles) cobre de forma rápida e prática desde o básico da
fertilidade até dicas que muitas mulheres só descobrem depois de meses tentando.
E a Abrafe (Associação Brasileira de Apoio à Fertilidade) publicou o “Jornada da Fertilidade”, um guia que acolhe e informa quem está passando por essa caminhada.
Um recado final
Se você está lendo este artigo, provavelmente está em algum lugar entre o desejo e a
dúvida. Talvez esteja tentando engravidar e ouvindo mais opiniões do que gostaria. Talvez
já seja mãe depois dos 40 e queira se sentir menos sozinha nisso. Ou talvez esteja
pensando se ainda dá tempo.
Dá. Com informação, com acompanhamento médico, e com a coragem que você já tem. Eu
engravidei aos 42 — e se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. Cada exame,
cada ansiedade, cada noite em claro. Porque a maternidade, em qualquer idade, é a coisa
mais transformadora que já me aconteceu.
Você é mãe depois dos 40? Está pensando em ter um filho nessa fase da vida? Conta pra
gente nos comentários. Sua história pode ser exatamente o que outra mulher precisa
ler hoje.

Perguntas frequentes (FAQ)
Qual a chance de engravidar naturalmente depois dos 40?
A chance de concepção natural por ciclo menstrual é de aproximadamente 5% aos 40 anos,
segundo a FEBRASGO. Isso significa que a maioria das mulheres nessa faixa etária precisa
de mais tempo para engravidar, e algumas podem necessitar de reprodução assistida.
Gravidez depois dos 40 é gravidez de risco?
A OMS e a FEBRASGO classificam gestações após os 35 anos como de atenção obstétrica
especial, não necessariamente de “alto risco”. O risco depende da saúde geral da gestante,
histórico médico e qualidade do pré-natal.
Até que idade uma mulher pode engravidar?
A menopausa marca o fim da fertilidade natural, ocorrendo em média entre 48 e 52 anos.
Antes da menopausa, a fertilidade já está significativamente reduzida. Com óvulos doados
ou congelados previamente, é possível engravidar via FIV mesmo após a menopausa, sob
acompanhamento médico rigoroso.
O SUS cobre tratamento de fertilidade?
Sim, mas de forma limitada. Alguns centros públicos especializados oferecem FIV pelo
SUS, como o Hospital Perola Byington (SP) e o Hospital das Clínicas (SP, MG, RS). Há filas
de espera e critérios de elegibilidade que variam por instituição.
Fontes citadas neste artigo
FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. IBGE
— Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2024). OMS — Organização Mundial da
Saúde. ACOG — American College of Obstetricians and Gynecologists (2022). ESHRE —
European Society of Human Reproduction and Embryology (2023). SBRA — Sociedade
Brasileira de Reprodução Assistida. Lean et al. (2017) — Advanced maternal age and
adverse pregnancy outcomes. PubMed. Aldrighi et al. (2016); Scavone (2001) — Estudos
sobre adiamento da maternidade no Brasil.

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